Por Agro em Campo
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7 de setembro de 2026
A Justiça do Paraná deferiu o processamento da recuperação judicial do Grupo BMG, conglomerado do setor de proteína animal que mantém seu principal estabelecimento em Iporã (PR) e o centro administrativo em Maringá (PR). Somando os créditos concursais e extraconcursais, o passivo do grupo alcança R$ 3.787.416.446,45. O grupo apresentou o pedido em litisconsórcio ativo, sob consolidação processual, e o juízo ressalvou que analisará a consolidação substancial, também requerida, em momento oportuno, após ouvir o administrador judicial, conforme os requisitos do art. 69-J da Lei 11.101/2005. Do Paraguai ao Brasil: a trajetória do Grupo BMG no mercado de carnes O Grupo BMG representa a frente brasileira do Grupo Concepción, conglomerado internacional que atua na produção, industrialização e exportação de proteínas animais no Paraguai, na Bolívia e no Brasil. A história começou em 1997, na cidade paraguaia de Concepción, com a criação da Nelore Importadora y Exportadora, que no ano seguinte adotou o nome Frigorífico Concepción S.A. Nas décadas seguintes, o grupo ampliou a operação com investimentos em exportação, biodiesel, curtimento de peles, processamento de subprodutos e produção de hambúrgueres. O grupo ingressou no mercado brasileiro em 2021, ao adquirir a Brazilian Meat Group, atual BMG Foods, e o Frigorífico Vila Bela, unidade localizada em Vila Bela da Santíssima Trindade (MT) que garantiu acesso direto a uma das principais regiões pecuárias do país. A partir dessas aquisições, a companhia expandiu-se para dezenas de unidades, entre plantas frigoríficas e centros de distribuição, distribuídas por sete estados e pelo Distrito Federal. Capacidade atual Atualmente, o grupo opera seis plantas frigoríficas, quatro próprias e duas arrendadas, com capacidade anual de abate de aproximadamente um milhão de bovinos e 550 mil suínos. Em Entre Rios do Oeste (PR), a empresa concentra o principal núcleo da suinocultura, com fazenda, fábrica de ração e granjas próprias, arrendadas e integradas, somando capacidade instalada superior a 35 mil animais nas etapas de reprodução, creche, recria e terminação. Em Iporã (PR), fica a principal unidade industrial de suínos, capaz de abater 2.400 animais por dia e uma média mensal de 40 mil abates. O grupo mantém ainda unidades em Grão-Pará (SC), Tarauacá (AC), Cacoal (RO), Nova Londrina (PR) e Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), além de uma base logística em Iguaraçu (PR), com frota de 242 veículos. A operação exporta para mais de 40 países e possui habilitação para mercados de elevada exigência sanitária, como União Europeia, China e Oriente Médio, além de experiência em modalidades específicas de abate, como Halal e Kosher. O portfólio reúne as marcas Gold Beef, Gold Beef Prime Grill, Patrão do Churrasco, Notable, My Pork e Gran Cani. Na estrutura societária, a BMG Foods incorporou a BMG Agrícola Ltda. e a BMG Transportes Nacional e Internacional Ltda., passando a concentrar as atividades agrícolas, de produção de ração, transporte e logística. Quais empresas do grupo tiveram a recuperação judicial deferida O juízo deferiu o processamento da recuperação judicial, em consolidação processual, das seguintes sociedades: BMG Foods Importação e Exportação Ltda., BMG Tecnologia em Informação Ltda., Arista Créditos e Cobranças Ltda. e Frigorífico Vila Bela Ltda. Cada empresa cumpre uma função específica na cadeia produtiva. A BMG Foods responde pelo abate, pela industrialização, pela comercialização, pela importação e pela exportação de carnes bovinas e suínas. O Frigorífico Vila Bela atua no abate de bovinos, na fabricação de produtos cárneos e no aproveitamento de subprodutos, com destaque para envoltórios naturais. A Arista opera na cobrança e na recuperação extrajudicial de créditos. E a BMG Tecnologia desenvolve e licencia os sistemas que sustentam a gestão das operações agropecuárias e frigoríficas. Por que o Grupo BMG entrou em crise econômico-financeira Uma combinação de fatores conjunturais e estruturais comprimiu as margens, a liquidez e o capital de giro do Grupo BMG. O primeiro fator foi a reversão do ciclo pecuário. Depois do recorde de abates em 2024, a arroba do boi gordo saltou de cerca de R$ 240,00 para patamares entre R$ 340,00 e R$ 350,00 no final daquele ano. Uma alta que continuou até atingir R$ 367,30 em abril de 2026, o maior valor nominal da série histórica do CEPEA/ESALQ-USP. Como o boi gordo representa o principal componente de custo da atividade, o descompasso entre o preço da matéria-prima e a capacidade de repassá-lo aos preços finais comprimiu diretamente as margens da empresa. Ao mesmo tempo, a crise da suinocultura também atingiu o grupo: depois da produção recorde de 2025, o excesso de oferta derrubou em aproximadamente 40% o preço do suíno vivo, de R$ 168,00 para cerca de R$ 100,00, e levou a operação a produzir abaixo do custo. A relação de troca entre o preço de venda do suíno e o custo dos insumos de alimentação caiu para um patamar inferior a cinco, abaixo do nível considerado adequado para cobrir o custo alimentar dos plantéis. Comércio exterior No comércio exterior, barreiras e tarifas impostas pelos três principais mercados do grupo. A sobretaxa norte-americana, as cotas tarifárias chinesas e a ampliação das exigências regulatórias da União Europeia provocaram a retração das exportações. A valorização do real agravou o quadro, já que a empresa realiza as vendas em dólar e paga os custos em reais: entre o final de 2024 e o início de 2026, a moeda norte-americana recuou mais de 15%. A inadimplência de clientes, a não renovação e o vencimento de linhas de crédito reduziram a liquidez em ao menos R$ 30 milhões, enquanto operações realizadas em plantas industriais de terceiros consumiram um aporte de mais de R$ 70 milhões. Esse cenário desencadeou demandas judiciais que resultaram em bloqueios de contas, arresto de matrizes suínas e apreensão de veículos da frota, culminando em 1.521 títulos protestados, no valor de R$ 46,7 milhões, e em um score Serasa em nível de default. O caso ainda tem uma relevante dimensão internacional: a BMG Foods figura como garantidora de Senior Secured Notes emitidas no exterior pelo Frigorífico Concepción S.A., no valor original de US$ 300 milhões, e de Senior Secured Credit Facilities estimadas em US$ 108,6 milhões. Os financiadores declararam o vencimento antecipado dessas dívidas em razão de inadimplemento, o que as tornou imediatamente exigíveis também contra a garantidora brasileira. Antes de recorrer ao Judiciário, o grupo implementou medidas privadas de contenção: renegociou com financiadores, buscou investidores, tentou alienar ativos, reduziu o plantel, desmobilizou plantas industriais e enxugou a operação, cortando o quadro de funcionários de 5.500 em 2025 para cerca de 1.750. Depois de esgotar as alternativas negociais, incluindo uma mediação prévia perante câmara especializada, a empresa recorreu à recuperação judicial como medida necessária. Quanto o Grupo BMG deve e quem são os credores O passivo sujeito aos efeitos da recuperação judicial, atribuído ao valor da causa nos termos do art. 51, § 5º, da Lei 11.101/2005, alcança R$ 3.543.445.330,00, distribuído entre as classes de credores da seguinte forma: Os autos do processo reúnem centenas de credores, o que inviabiliza a análise individual dos principais nomes. A lista completa, com a identificação de cada credor e o respectivo valor, está disponível no arquivo anexado ao final desta publicação. A Classe III, que responde por mais de 98% do passivo concursal, marca o centro deste processo: a negociação do plano de recuperação judicial vai se decidir, na prática, entre os credores quirografários; bancos, fornecedores de gado, integrados, produtores rurais e prestadores de serviço. Além do passivo sujeito ao concurso, o Grupo BMG registra dívida extraconcursal no montante de R$ 243.971.116,45. Esses créditos, por sua natureza ou pela data do fato gerador, não se submetem aos efeitos da recuperação judicial e, portanto, a empresa deverá honrá-los nas condições originalmente contratadas, sem possibilidade de renegociação coletiva no plano. Somado ao passivo concursal, o endividamento total do grupo atinge R$ 3.787.416.446,45. Como tramita o processo e quem é o administrador judicial A recuperação judicial do Grupo BMG tramita sob o número 0015002-81.2026.8.16.0194, na 1ª Vara Estadual de Falências e Recuperação Judicial do Foro Central da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba (PR). O juízo nomeou o escritório Brazilio Bacellar e Shirai Advogados como administrador judicial. Ao deferir o processamento, o juízo suspendeu as ações e execuções contra as devedoras, deduzindo do prazo do stay period o período já decorrido desde a tutela cautelar antecedente, conforme o art. 20-B, § 3º, da Lei 11.101/2005. A decisão também determinou que as distribuidoras de energia elétrica e a fornecedora de gás não interrompam o fornecimento por faturas vencidas antes do pedido, reconheceu a ineficácia das cláusulas de vencimento antecipado acionadas exclusivamente em razão da recuperação judicial e determinou a liberação de dois Bills of Lading que um agente de cargas retinha, relativos a contêineres de carne suína destinados à África do Sul. Por outro lado, o juízo indeferiu o pedido de suspensão dos apontamentos em cartórios de protesto e órgãos de restrição ao crédito, e postergou a análise da essencialidade dos bens e da frota para depois da manifestação do administrador judicial. Quais desafios o setor frigorífico e o Grupo BMG enfrentam na recuperação judicial O setor de proteína animal atravessa um dos momentos mais adversos de sua história recente. A virada do ciclo pecuário elevou o custo da matéria-prima em ritmo superior à capacidade de repasse ao consumidor, pressionando as margens de toda a cadeia, inclusive das maiores companhias do segmento, que anunciaram férias coletivas, ajustes operacionais e revisão de projeções. A simultaneidade da crise nos segmentos bovino e suíno agrava o quadro, pois retira dos grupos verticalizados a proteção que a diversificação costuma oferecer. Não por acaso, em 2025, pela primeira vez na série histórica de quatorze anos, o setor agropecuário liderou os pedidos de recuperação judicial no país, com 743 pedidos, superando o setor de serviços. Para o Grupo BMG, o primeiro desafio será preservar a integridade operacional durante a reorganização. Diferentemente de atividades cujos ativos podem permanecer inertes, a operação frigorífica depende de fluxo contínuo: os animais vivos precisam de alimentação, as plantas industriais precisam de energia e gás para manter câmaras frias e linhas de abate, e a frota precisa circular para escoar o produto perecível. Qualquer interrupção nessa cadeia converte-se imediatamente em perda de ativo e de receita, o que explica a centralidade das tutelas de urgência já deferidas e das que ainda dependem da manifestação do administrador judicial. Composição do passivo O segundo desafio tem natureza negocial e decorre da própria composição do passivo. Com mais de R$ 3,5 bilhões concentrados na classe quirografária e centenas de credores de perfis distintos, de instituições financeiras, fornecedores de insumos, produtores integrados e prestadores de serviço, a construção de maioria em assembleia geral exigirá um plano capaz de conciliar interesses bastante heterogêneos. A exposição internacional decorrente das garantias prestadas a operações financeiras contratadas no exterior soma-se a esse desafio, já que sua articulação com o plano brasileiro representa um elemento sensível para a viabilidade da reestruturação. O terceiro desafio envolve a recomposição do capital de giro em um ambiente de crédito restrito. O score de crédito em nível de default, os protestos mantidos por decisão judicial e a ampla repercussão pública da crise dificultam o acesso a novas linhas de financiamento justamente no momento em que a retomada operacional mais depende delas. A superação da crise dependerá, portanto, tanto da qualidade do plano que a empresa apresentará no prazo legal quanto de fatores externos ao controle dos recuperandos; a acomodação do ciclo pecuário, a recuperação do preço do suíno vivo e a reabertura efetiva dos mercados externos que sustentam a operação exportadora do grupo.