Por Gazeta Digital
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21 de junho de 2026
Cortar as asas dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT). Esse é o motivo dos ataques que o órgão fiscalizador vem sofrendo nos últimos dias, segundo a leitura do analista político João Edson. Em entrevista ao , ele explicou que a participação mais ativa da Corte de Contas na relação entre os Poderes é um fator novo, que traz preocupação aos agentes políticos do estado. “De repente chegou uma figura nova que nunca fez parte da política, quer dizer, faz parte da política, mas nunca publicamente esteve na política. É o pessoal que negociava de bastidores, conversava, explicava, ‘olha, está acontecendo tal coisa, corre lá que vai chegar denúncia’. Existia uma camaradagem e se perdeu isso. Não sei dizer se melhorou a fiscalização, mas que não existe mais uma relação de cumplicidade nas relações de poder, não existe mais”, afirmou. “Numa contenda, numa briga, numa disputa, qualquer palha é suficiente para botar fogo. Mas acho que a questão mais grossa está no seguinte: na cultura. ‘Escuta, o TCE nunca fez isso, ir para a imprensa, botar, trazer, está fazendo agora e a gente precisa cortar as asas deles’ [ é assim que pensa o político]”, explicou. O protagonismo dos Tribunais de Contas em todo o país tem, para João Edson, explicação na quantidade de casos de corrupção registrados cotidianamente no país. E causa incômodo porque, cada vez que se mexe em uma obra pública, os governos estaduais se tornam alvo, mas também os deputados estaduais que destinam recursos para esses projetos. Ele destaca também que o cenário pode ser visto em Brasília nas relações entre os Três Poderes: o Congresso recusou uma indicação política do presidente da República para o Supremo Tribunal Federal; as decisões do STF são questionadas diariamente por parlamentares e junto à opinião pública; ao mesmo tempo, ministros do STF fazem pressão na Câmara dos Deputados e no Senado Federal para que projetos sejam aprovados ou arquivados conforme os seus interesses. Um episódio marcante dessas fiscalizações foi quando o prefeito da Capital, Abilio Brunini (PL), foi inquirido publicamente diante de praticamente todos os veículos de imprensa da cidade durante uma vistoria no almoxarifado da Secretaria Municipal de Educação após a revelação de irregularidades na aquisição de material didático. A cena viralizou em diversas páginas nas redes sociais e virou manchete em toda a mídia. O ex-governador Mauro Mendes (União), que é pré-candidato ao Senado, não mediu palavras para responder às fiscalizações do TCE na rodovia estadual MT-170, asfaltada na sua gestão. Ele disse que o presidente da corte, conselheiro Sérgio Ricardo, faz “papagaiada” e “circo”. Mendes também a postura do conselheiro de publicizar os resultados das fiscalizações no curso dos processos que tramitam no TCE, o que seria uma violação da Constituição Federal e desrespeito às atribuições da órgão. Para João Edson, não há nenhuma lei que proíba os conselheiros de falarem com a imprensa ou fazerem denúncias publicamente. Ressaltou que, como qualquer pessoa, especialmente as que ocupam cargos públicos, os excessos podem ser punidos pela Justiça, mas que o entendimento que prevalece é o de que, se não há regra que proíba, então é permitido. “Eu estranho isso num conselheiro? Eu estranho. Mas é ilegal? Eu não vejo nenhuma ilegalidade com relação a isso. Pelo menos em tudo o que eu li até hoje, pelo que estudei, não tem nada em relação a isso, mas é a cultura e muitas vezes a pessoa se apega com isso, muito mais à cultura do que ao escrito”, disse. Na quarta-feira (17), o deputado estadual Chico Guarnieri (PSDB) apresentou requerimento para a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra Sergio Ricardo por supostamente estar atuando em benefício do senador Wellington Fagundes (PL), pré-candidato ao governo do estado. Fagundes, conforme Guarnieri, teria destinado R$ 20 milhões em emendas para o TCE. Na semana anterior, Guarnieri já havia dito na tribuna da Assembleia Legislativa que o presidente do TCE faz “ativismo político” e que o órgão estava se transformando em “tribunal político”. “O que está existindo são ataques. O Sergio Ricardo em si atacou os dois administrativos (Prefeitura de Cuiabá e o governo do Estado) e um administrativo começou a responder, inclusive chegando à Assembleia Legislativa, até porque o Tribunal de Contas é uma extensão da Assembleia Legislativa, é parte colaboradora do processo de fiscalização. Mas aí é disputa de espaço político”, destacou. “Foi um conselheiro lá [fiscalizar a MT-170], mas, de 24 deputados, não foi ninguém. A Assembleia Legislativa deveria ter feito o seu papel, não fez. Foi o conselheiro lá e fez esse papel. Então existe uma falha e, nesse espaço dessa falha, nessa lacuna, esses poderes regulatórios todos cresceram. O Ministério Público cresceu assim”, comparou. Para o analista, Sergio Ricardo, que se tornou o rosto dessa nova forma de atuar no TCE, não parece ter pretensões políticas. O cargo é quase vitalício, já que os conselheiros só são obrigados a se aposentar aos 75 anos. Contudo, pontuou que um político nunca deixa de ser político. “Um político vai ser eternamente político. Quantos conselheiros passaram por lá e, de repente, ‘escaparam’ de lá e foram candidatos ? Júlio Campos é exemplo disso. Outros não foram porque, quando saíram, tinham muitos processos; alguma coisa os segurou um pouco, senão sairiam direto para ser candidatos . Não tem ex-político. Existe político que perdeu a base totalmente e perdeu os votos, mas brilha o olho cada vez que chega uma eleição”, concluiu.